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sexta-feira, 4 de setembro de 2009

«Os debates»

Vasco Pulido Valente, Público, 04.09.2009

Se alguém esperava ficar "esclarecido" ou informado com os dez "debates" de televisão entre o primeiro-ministro e os chefes dos partidos da oposição (os partidos parlamentares, como é evidente) vai ficar desiludido. O "formato", em parte copiado do regimento da Assembleia da República, foi feito para impedir qualquer espécie de verdadeira argumentação - uma argumentação com inteligência, com interesse e com nexo. Em cada sessão há seis temas (que a TVI, a SIC e a RTP em princípio escolhem). Cada um dos participantes tem direito a falar livremente dois minutos e meio sobre cada tema, a seguir, um minuto para "responder" ao "adversário". Ao todo, a conversa, incluindo a intervenção da moderadora (ou moderador) não deve exceder 45 minutos.
Como se explica em menos de quatros minutos, contando com o "repique", a situação económica portuguesa (e a maneira de limitar a crise) ou a reforma da segurança social excede a imaginação humana. O que, na prática, sucede é que se trocam vulgaridades de propaganda e alguns comentários supostamente insidiosos para embaraçar o outro lado, que só percebem alguns fanáticos da política e que a esmagadora maioria do eleitorado ignora ou, do fundo do coração, despreza. Sócrates, por exemplo, não parou de criticar o governo Barroso, a que Paulo Portas pertenceu (como ministro da Defesa). A irrelevância disto é absoluta. Mas Sócrates não se importa. Como não se importa de repetir a longa lista das medidas maravilhosas que tomou e que nos trouxeram à maravilhosa situação em que vivemos. Desde que ninguém o "aperte" e ele "aperte" o próximo, ganhou o dia.

Os dez "debates" são uma espécie de imposto, que o poder, contrariadamente, paga à democracia. No resto do ano, não presta satisfações. Na Assembleia da República, Sócrates responde ao que lhe perguntam, se por acaso lhe apetece, e não responde, se não lhe apetece. Os ministros praticamente não se vêem e quase não abrem a boca sobre coisa nenhuma. Não existe uma vigilância institucionalizada sobre o governo: nem dos partidos, nem dos media. A vida pública ocupa um pequeno espaço nos noticiários, mesmo da imprensa, e, pior ainda, tirando alguma bisbilhotice táctica, a atitude geral é de pura passividade. Os "debates" servem para demonstrar que existe por aqui um país "normal". Demonstram precisamente o contrário.

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